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Quadrilátero Censitário: o que é, como funciona e por que muda a lógica da segmentação no Brasil

Existe uma camada de dado que o mercado de mídia brasileiro usa com frequência sem necessariamente entender de onde ela vem, como é construída e quais são os seus limites.
Essa camada se chama Quadrilátero Censitário.
Ou, no vocabulário técnico do IBGE: Setor Censitário.
É a menor unidade territorial para a qual o Brasil produz dados socioeconômicos de forma sistemática. É o recorte geográfico que fundamenta a maioria das segmentações de público baseadas em renda, classe social e perfil de consumo no país.
Mas poucos profissionais de mídia conhecem profundamente a estrutura desse dado, como ele é gerado, quando ele fica obsoleto, e o que isso significa na prática para uma campanha digital.
Esse texto é uma tentativa de mudar isso.
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O que é um Setor Censitário
O Brasil é dividido em unidades territoriais progressivamente menores para fins de coleta e organização de dados estatísticos. A hierarquia vai de país para estado, de estado para município, de município para distrito, de subdistrito para bairro ou localidade, e de lá para o Setor Censitário.
O Setor Censitário é a menor dessas divisões.
Ele representa uma área geográfica contínua, dentro de um único município, com um número manejável de domicílios para que um único recenseador consiga percorrer e coletar dados em um prazo operacional razoável. O IBGE usa como referência de dimensionamento algo em torno de 200 a 350 domicílios particulares permanentes por setor em áreas urbanas, e volumes menores em áreas rurais ou de difícil acesso.
O nome popular “Quadrilátero Censitário” deriva da representação gráfica dessas unidades: na maioria dos contextos urbanos, os setores são delimitados por vias e logradouros, formando polígonos fechados que, nos mapas, tendem a assumir formas retangulares ou quadrilaterais.
Mas o termo técnico correto, e o mais utilizado no vocabulário do IBGE e dos sistemas de geoinformação, é Setor Censitário.
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Como ele é construído
A criação dos Setores Censitários não segue uma lógica de bairro, CEP ou distrito administrativo. Ela segue uma lógica operacional de coleta.
O IBGE divide o território nacional em setores para garantir que o Censo Demográfico possa ser realizado de forma organizada, com cada setor sob responsabilidade de um recenseador. Isso significa que a forma dos setores acompanha a realidade urbana de cada região: quadras, loteamentos, conjuntos habitacionais, favelas, áreas industriais e zonas rurais geram formatos e densidades diferentes de setores.
Em áreas urbanas densas, como os centros das grandes cidades, um setor pode compreender apenas algumas quadras. Em áreas rurais do interior do país, um único setor pode se estender por vários quilômetros quadrados.
Essa variação de escala é um ponto que merece atenção especial para quem usa esse dado em mídia.
Dois setores no mesmo município podem representar populações e áreas físicas completamente diferentes entre si. Um setor em Higienópolis, em São Paulo, e um setor em Parelheiros, na mesma cidade, não são comparáveis em dimensão física, mas têm o mesmo peso estatístico no sistema do IBGE.
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A escala do mapeamento: 452.246 setores
Para entender a dimensão operacional do que o IBGE faz, vale olhar para os números. O Censo 2022 mapeou 452.246 setores censitários em todo o território nacional.
O Censo anterior, realizado em 2010, havia mapeado 316.574 setores. Isso significa que o Censo 2022 incorporou 135.672 novos setores, um crescimento de aproximadamente 42% em relação ao levantamento anterior.
Esse crescimento não reflete apenas o aumento populacional. Ele reflete, ao mesmo tempo, a expansão urbana do país nas bordas das metrópoles e cidades médias, a criação de novos núcleos habitacionais, formais e informais, que antes não existiam ou não eram cartografados com precisão, e o aperfeiçoamento das técnicas de mapeamento do próprio IBGE, que passou a utilizar imagens orbitais de alta resolução para delinear setores com muito mais detalhe do que era possível em 2010.
Esses 135.672 novos setores são, na prática, regiões do Brasil que simplesmente não existiam como unidade de dado socioeconômico estruturado até 2022. Favelas consolidadas que passaram a ser mapeadas internamente com granularidade, loteamentos surgidos ao longo da última década, expansões periféricas de médias cidades do interior, tudo isso entrou no sistema.
Para quem trabalha com segmentação, isso tem uma implicação direta: qualquer ferramenta ou plataforma que ainda operava com a malha de 2010 estava trabalhando com uma fotografia incompleta do território brasileiro, especialmente nas regiões de crescimento acelerado, exatamente onde vivem populações que mais mudaram de perfil na última década.
Fonte: IBGE — Atualização da Base Territorial, Censo Demográfico 2022
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O que esses setores parecem na prática: o exemplo de Pinheiros
Entender o Setor Censitário como conceito abstrato é uma coisa. Ver como ele se desenha no território é outra, e muito mais reveladora.
O distrito de Pinheiros, em São Paulo, é um bom exemplo para ilustrar a diferença entre as duas escalas de análise. Como distrito, ele aparece como uma unidade geográfica singular, com um contorno definido:

Figura 1 — Delimitação do Distrito de Pinheiros, São Paulo (representação esquemática baseada em dados do IBGE)
Mas quando descemos um nível e olhamos para os Setores Censitários dentro desse mesmo distrito, a imagem muda completamente. O que era uma unidade passa a ser dezenas de polígonos distintos, cada um com formas, tamanhos e características próprias:

Figura 2 — Setores Censitários dentro do Distrito de Pinheiros (representação esquemática). Cada polígono colorido é um setor independente, com seus próprios dados socioeconômicos.
Observando a Figura 2, dois pontos ficam imediatamente evidentes.
O primeiro é a heterogeneidade de formas. Alguns setores seguem o padrão de quadras regulares, com geometria quase retangular. Outros assumem formas completamente irregulares, moldados por avenidas diagonais, córregos, limites de propriedades ou concentrações comerciais específicas. Não existe uma forma padrão, cada setor reflete a morfologia real do território que ele representa.
O segundo é a heterogeneidade de tamanho. Setores menores tendem a aparecer em áreas de alta densidade habitacional ou comercial, onde o número de domicílios por quilômetro quadrado é muito maior. Setores maiores cobrem áreas de menor densidade, onde o recenseador precisa percorrer mais espaço para atingir o mesmo número de domicílios.
Essa variação visual traduz diretamente a variação de precisão que cada setor carrega. Um setor pequeno e denso, em uma região central, tende a ser mais homogêneo internamente, o que torna a inferência socioeconômica baseada nele mais confiável. Um setor grande, cobrindo uma área ampla com múltiplos perfis habitacionais, carrega muito mais variância e, portanto, mais incerteza para quem usa esse dado como proxy de comportamento.
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O que o Censo coleta por setor
Durante o Censo Demográfico, o IBGE aplica dois instrumentos principais: o questionário básico, que alcança todos os domicílios, e o questionário da amostra, que alcança uma fração dos domicílios com perguntas mais detalhadas.
O questionário básico captura variáveis como número de moradores, sexo, idade, cor ou raça, e algumas características do domicílio.
O questionário da amostra vai muito além: renda, escolaridade, ocupação, situação de trabalho, acesso a serviços, mobilidade urbana, condições habitacionais e dezenas de outras variáveis socioeconômicas.
Quando os dados são agregados por Setor Censitário, é possível saber, para cada polígono geográfico do país, qual a renda média dos domicílios, qual a proporção de moradores com ensino superior completo, qual a densidade demográfica, qual o percentual de moradores que trabalha fora do setor, entre muitas outras variáveis.
Esse conjunto de informações é o que alimenta, direta ou indiretamente, a maioria das classificações de renda e classe social utilizadas no mercado brasileiro.
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A inferência socioeconômica: de onde vem o “Classe A/B/C”
Aqui está o ponto que mais impacta diretamente o mercado de mídia e que menos é discutido com profundidade.
A classificação de renda utilizada em campanhas digitais, seja ela expressa como classes A, B, C, D e E, seja como faixas de renda ou decis de consumo, raramente vem de dados declarados individualmente por cada usuário ou domicílio.
Ela vem, na maioria das vezes, de um processo de inferência.
O mecanismo funciona assim: sabendo a qual Setor Censitário um determinado dispositivo, endereço ou usuário pertence, é possível associar a ele as características médias daquele setor. Se um setor tem renda média domiciliar de R$ 8.000 mensais, todos os dispositivos inferidos como pertencentes àquele setor serão rotulados com aquela faixa de renda.
Esse processo é chamado de inferência socioeconômica por geolocalização.
Ele é amplamente utilizado por plataformas de dados, data brokers, fornecedores de audiência e ferramentas de planejamento de mídia no Brasil.
E ele carrega uma limitação estrutural que não costuma aparecer nos decks de mídia: a variância interna de cada setor.
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O problema da variância interna
Um Setor Censitário não é homogêneo.
Ele representa uma média.
E médias escondem distribuições.
Em um setor com renda média de R$ 5.000, podem coexistir domicílios com renda de R$ 1.500 e domicílios com renda de R$ 15.000. A média diz que o setor é de “classe média”, mas a distribuição real pode ser extremamente heterogênea.
Isso gera um efeito direto em campanhas: quando um usuário é classificado como “classe B” com base apenas no setor onde seu dispositivo registrou atividade predominante, essa classificação carrega um erro implícito proporcional à variância interna daquele setor.
Em áreas urbanas de baixa densidade e alta homogeneidade socioeconômica, como condomínios fechados de alto padrão ou bairros históricos de elite, a inferência tende a ser mais precisa, porque a variância interna é menor.
Em áreas de alta heterogeneidade, como bairros de transição entre regiões de renda muito diferente, ou zonas de uso misto com comércio intenso, a inferência pode ser muito imprecisa.
Isso não torna o dado inútil. Mas torna obrigatório entendê-lo como uma estimativa probabilística, não como uma certeza.
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A defasagem temporal: o dado envelhece
O Censo Demográfico brasileiro é, teoricamente, decenal. Deveria acontecer a cada dez anos.
O último Censo foi realizado em 2022, com um atraso de dois anos em relação ao previsto, causado pelos impactos da pandemia. O anterior havia sido realizado em 2010.
Isso significa que, durante mais de uma década, todo o mercado brasileiro de mídia operou com dados de setores censitários coletados em 2010.
Uma década inteira de transformações urbanas, migrações internas, processos de gentrificação, expansão periférica, surgimento de novas centralidades econômicas e mudanças profundas no perfil socioeconômico de bairros inteiros, tudo isso aconteceu enquanto o dado de referência permanecia congelado em 2010.
Esse envelhecimento tem consequências práticas diretas. Regiões que passaram por valorização intensa ao longo da década continuavam sendo classificadas com os perfis de renda de 2010, mesmo que a realidade fosse completamente diferente.
O Censo 2022 trouxe uma atualização significativa, e os 135.672 novos setores mapeados são parte dessa atualização. Mas o ciclo se repete: a partir de agora, o dado começa a envelhecer novamente. E em dez anos, as distorções voltarão a se acumular.
Para quem trabalha com planejamento de mídia baseado em perfil socioeconômico, isso é uma variável de risco que precisa ser considerada explicitamente, não ignorada.
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Setor Censitário vs. comportamento real
A questão mais relevante para o mercado de mídia moderno não é técnica. É estratégica.
O Setor Censitário informa onde uma pessoa provavelmente mora. E, por inferência, qual é o perfil socioeconômico médio daquele território.
Mas morar em um local não equivale a consumir como a média daquele local.
Uma pessoa de alta renda que mora em um bairro popular por escolha ou histórico familiar é invisível para esse modelo. Um universitário em uma república numa região de classe média aparece como classe média. Um microempreendedor que mora em uma área de baixa renda e tem faturamento mensal relevante também é mal capturado.
A inferência socioeconômica por setor censitário descreve o território. Mas não descreve necessariamente o indivíduo.
E aí está o ponto de tensão fundamental: em mídia digital, a unidade relevante de segmentação não é o território. É o comportamento.
O que a pessoa faz, onde ela vai, com que frequência, em que horários, quais tipos de estabelecimento ela frequenta, essas variáveis comportamentais tendem a ser muito mais preditivas de intenção de consumo do que o perfil médio do setor onde ela registrou atividade noturna.
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Como a geolocalização e o comportamento preenchem as lacunas
A evolução dos dados de mobilidade criou uma possibilidade que não existia quando o Setor Censitário se tornou o padrão de referência para segmentação no Brasil.
Com dados de geolocalização coletados de forma ética e anonimizada, é possível observar os padrões de deslocamento de um dispositivo ao longo do tempo e construir inferências muito mais granulares sobre comportamento.
Não apenas onde a pessoa mora, mas onde ela trabalha, quais tipos de estabelecimento ela frequenta, com que regularidade, em quais horários, em quais regiões da cidade.
Esses padrões comportamentais permitem construir perfis que complementam, e em muitos casos superam em precisão, a inferência socioeconômica estática do setor censitário.
Um dispositivo que regularmente visita clínicas de estética de alto padrão em bairros nobres, frequenta academias de luxo e faz check-in em restaurantes caros carrega um sinal de renda muito mais concreto do que o simples fato de que o endereço residencial inferido fica em um setor classificado como classe B.
A combinação dos dois mundos, a referência territorial do setor censitário com a riqueza comportamental dos dados de mobilidade, é o que permite construir audiências verdadeiramente qualificadas.
O setor censitário ancora a análise no território. O comportamento a torna real.
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Por que isso importa para as agências e anunciantes
Para quem compra mídia no Brasil, entender essa estrutura não é um exercício acadêmico.
É uma questão de eficiência de investimento.
Campanhas segmentadas apenas por faixa de renda inferida a partir de setor censitário estão, na prática, apostando na média de um polígono geográfico. Isso funciona em escalas grandes. Mas perde eficiência quando o produto ou serviço anunciado exige uma correspondência mais precisa entre o perfil do receptor e a mensagem.
A pergunta que toda operação de mídia deveria fazer antes de configurar uma segmentação socioeconômica é simples: esse dado reflete quem essa pessoa é, ou reflete onde ela dorme?
Em muitos casos, especialmente em grandes centros urbanos com alta mobilidade e heterogeneidade socioeconômica, essas duas respostas são muito diferentes.
Entender o Setor Censitário, sua lógica, suas limitações e seu papel como ponto de partida, não de chegada, é o primeiro passo para construir estratégias de segmentação que funcionem de verdade.
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O papel da Hands nesse contexto
A plataforma da Hands foi construída para operar exatamente nessa intersecção entre dado territorial e comportamento real.
O Audience Hub integra dados de geolocalização, comportamento de mobilidade e informações cadastrais para criar audiências que vão além da inferência estática do setor censitário.
Isso permite construir públicos baseados em presença física real, não apenas em estimativas territoriais, e ativá-los em qualquer canal de mídia digital, de Instagram e TikTok a DV360 e Spotify.
O Setor Censitário continua sendo uma referência importante. Mas ele é o mapa, não o território.
E em mídia, o que importa não é o mapa. É o comportamento real das pessoas que vivem nele.
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Brasil em Cannes: os cases que ganharam Leões

O Brasil voltou a mostrar em Cannes uma força que vai além da criatividade pela criatividade. Os cases premiados combinam cultura, mídia, tecnologia, comportamento e ideias simples de entender, exatamente o tipo de construção que transforma campanhas em conversa.
O principal destaque foi “Cupom em Campo”, da GUT São Paulo para Mercado Livre, vencedor do Grand Prix em Outdoor. A campanha transformou o gramado do Pacaembu em um código de barras gigante, permitindo que o público escaneasse a imagem durante a transmissão de uma partida e acessasse descontos em tempo real.
A LePub também levou Ouro com “Podia ser uma Heineken”, campanha criada para Heineken que conectou mídia exterior, comportamento social e o convite para encontros presenciais. Já a VML conquistou Ouro com “The Last Coke in the Desert”, para Coca-Cola, ao valorizar pequenos comerciantes que mantêm a bebida gelada mesmo em regiões remotas.
Na área de Health & Wellness, a Publicis Brasil foi premiada com “Save the Day”, para o Grupo Pulsa, iniciativa que transformou o dia de folga após a doação de sangue em uma oportunidade para jogar, aproximando a causa do universo gamer.
A Africa Creative também apareceu entre os Ouros com “Searching for Birds on Wires”, para Abradee, usando o áudio como ferramenta para chamar atenção aos riscos enfrentados por aves em fios elétricos.
Outro destaque veio em Design, com “Dancebook Brasil”, da Lovely para Bradesco, projeto que registrou danças brasileiras em partituras coreográficas, preservando movimentos culturais como samba, frevo, toada e chula.
Mais do que celebrar troféus, os cases brasileiros mostram uma direção importante: criatividade premiada hoje não vive só da grande ideia. Ela precisa conectar contexto cultural, uso inteligente de mídia, comportamento real e uma execução simples o suficiente para ser entendida rápido e forte o suficiente para circular.
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Data Lions: quando o uso dos dados ajuda a criar novas idéias e experiências.

O Creative Data Lions surgiu em 2015 como resposta a uma mudança de mercado: o dado deixava de ser camada de mensuração para virar matéria-prima de criação, de produtos, serviços e experiências, não só de argumento de campanha.
A categoria nasceu para reconhecer trabalhos em que dados, tecnologia, estratégia e criatividade atuam juntos para gerar impacto real. Não basta usar dado como prova de resultado. O ponto é mostrar como a inteligência de dados pode ser a base da própria ideia, o esqueleto, não a maquiagem.
Logo no primeiro ano, a categoria recebeu 609 inscrições e premiou 28 trabalhos. O júri decidiu não dar Grand Prix naquela edição, justamente por entender que a régua ainda estava sendo desenhada.O Brasil apareceu com um Leão de Bronze para “Meeting Murilo“, da Huggies/Kimberly-Clark (agência Mood).
O primeiro Grand Prix só veio na edição seguinte, em 2016: “The Next Rembrandt“, para o ING, criado pela J. Walter Thompson Amsterdam, um quadro impresso em 3D, treinado com dados de 346 pinturas originais de Rembrandt, que também levou o Grand Prix de Cyber no mesmo ano.
Para nós da Hands, Creative Data sempre foi a parte da premiação com maior expectativa, não pelo tema em si, mas porque conversa direto com como enxergamos mídia, comportamento e tecnologia: dado não como fim, mas como infraestrutura para criar contexto, resolver problema e gerar ação.
Em 2026, a categoria recebeu 391 inscrições e premiou 13 cases: 1 Grand Prix, 2 Ouros, 4 Pratas e 6 Bronzes. O Brasil chegou com 5 finalistas e converteu 2 Leões, Prata para “Unwatched Goals“, da Africa Creative para a Brahma, e Bronze para “Nigrum Corpus“, da Artplan para IDOMED e Instituto Yduqs (que também levou o Grand Prix de Glass: The Lion for Change nesta edição, tornando-se a primeira campanha brasileira a vencer dois Grand Prix diferentes na história do festival).
O Grand Prix mostrou onde a régua está agora
O Grand Prix de Creative Data 2026 foi para “SOS POS“, criado pela Circus Grey Lima para o BCP, o maior banco do Peru. E o que esse case prova é o oposto do que a maioria do mercado assume sobre “dado criativo”: não é sobre complexidade, é sobre encontrar um problema e entender como o uso inteligente de dados pode resolvê-lo, nesse caso ainda com o brilhantismo de utilizar uma infraestrutura já existente.
O ponto de partida é um problema concreto: no Peru, mais de 4 mil celulares são roubados por dia. O ladrão desbloqueia o aparelho em minutos e esvazia contas pelos apps bancários antes que a vítima consiga reagir. Todo banco tem linha de emergência para bloqueio, mas como ligar sem o celular? A pessoa depende de pedir emprestado, ou correr até uma agência, perdendo os minutos que mais importam.
A resposta do BCP não foi criar um canal novo, foi reaproveitar uma infraestrutura que já está em praticamente toda esquina: a maquininha de cartão. O POS (máquina de cartão de crédito) deixou de ser só ponto de venda e virou ponto de bloqueio de emergência. A vítima vai até o comércio mais próximo, digita documento e senha em qualquer maquininha participante, e a conta é bloqueada na hora, sem app, sem ligação, sem depender do aparelho roubado. O banco mapeou as regiões de maior incidência de furto e instalou mais de 17,5 mil pontos de bloqueio, cada um a menos de dois minutos de distância, com meta de chegar a 120 mil ao longo de 2026.
O que faz esse case ser forte em Creative Data não é sofisticação técnica, é o contrário disso. A ideia usa dados de localização (onde o roubo acontece mais), dado de autenticação (documento + senha) e uma rede física já madura (a malha de POS) para resolver, em minutos, um problema que hoje custa horas. Simples, rápido, escalável, e sem inventar nenhuma tecnologia nova. A criatividade estava em reconhecer que o dado certo já existia dentro de um sistema que ninguém tinha pensado em usar daquele jeito.
É a mesma lógica que sustenta qualquer estratégia de segmentação geolocalizada: o valor não está em coletar mais dados, está em reconhecer o padrão que já está ali, visita, frequência, permanência e transformar isso em ação no momento certo. O SOS POS não inventou uma nova camada de dado. Ele leu o que já tinha, e resolveu um problema real com ela.
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Hands em Cannes: conteúdo, relacionamento e Brasil na torcida

A Hands esteve na 73ª edição do Cannes Lions, o principal festival internacional de criatividade. Realizado anualmente na Riviera Francesa, o evento reúne agências, anunciantes, produtoras, big techs, creators, plataformas e lideranças que ajudam a definir os próximos movimentos da indústria.
Em 2026, o festival recebeu mais de 13 a 15 mil profissionais de mídia, tecnologia e publicidade de mais de 90 países, além de mais de 500 speakers e 150 horas de conteúdo ao longo da semana. Na premiação, foram 20.050 inscrições vindas de 92 países, queda de 25,46% em relação às 26.900 inscrições de 2025. A redução veio no mesmo ano em que o Cannes Lions adotou padrões mais rígidos de integridade para as inscrições, em resposta a debates sobre autenticidade, uso de IA, resultados inflados e transparência dos cases.
Nesta edição, a maior expectativa era entender como a inteligência artificial entraria na pauta depois de um 2025 marcado por debates, excessos e dúvidas sobre seu impacto real na criatividade, nos negócios e na operação de marketing.
Ao longo da semana, ficou claro que a discussão sobre IA já não é mais uma discussão sobre novidades. O tema apareceu conectado à criatividade, produtividade, reputação, cultura, confiança e, principalmente, à capacidade das marcas de manterem relevância em um ambiente cada vez mais automatizado.
Demis Hassabis, cofundador e CEO do Google DeepMind, dimensionou a escala da mudança em conversa no palco do Palais: nos próximos 10 a 15 anos, disse ele, a IA pode inaugurar “quase uma nova era humana”. A fala ajuda a entender por que o tema deixou de ser tendência lateral e virou centro da agenda, mas também é bom lembrar que é a visão de quem lidera um dos laboratórios que mais lucra com essa aceleração. Vale ouvir, não vale comprar sem checar.
Byron Sharp, do Ehrenberg-Bass Institute, maior centro de pesquisa de marketing do mundo, localizado na University of South Australia, e escritor do livro How Brands Grow (Como as Marcas Crescem), puxou a conversa de volta pra disciplina, dividindo palco com Mark Ritson numa sessão que lotou o Debussy Theatre. O ponto central deles: o trabalho de marca não é sobre o que a marca significa, é sobre o que evoca a marca, ativos distintivos, repetidos sem cansar, por tempo suficiente pra virarem atalho de memória. A provocação prática foi: todo mundo diz acreditar em consistência, mas a maioria das marcas muda de assinatura visual, tom e formato antes mesmo do público reparar que aquilo virou reconhecível. Automação e produção em massa de conteúdo turbinam exatamente esse problema, geram mais variação, não mais consistência.
Onde a conversa humana virou vantagem competitiva
Laura Nestler, EVP de Community do Reddit, levou a discussão para outro território: num mundo saturado de conteúdo gerado por IA, a conversa humana real, estranha, contraditória, imperfeita, passa a carregar sinal que nenhum modelo sintetiza de graça. É por isso que o Reddit chegou a Cannes 2026 vendendo justamente isso como diferencial de plataforma: inteligência de comunidade que “máquinas sozinhas não replicam”. Não é discurso sobre autenticidade, é posicionamento comercial direto contra o excesso de conteúdo gerado por IA que está inundando todo o resto da internet.
Asmita Dubey, Chief Digital & Marketing Officer da L’Oréal, trouxe um dado difícil de ignorar: hoje existem meio milhão de pessoas falando em nome das marcas da L’Oréal de forma autêntica, os creators. E ela também apontou pra onde a disputa está indo em seguida: como LLMs viram a nova porta de entrada pra descoberta de produto, a pergunta que toda marca vai precisar responder é se ela está sendo citada na “camada de resposta” desses modelos, o novo campo de batalha de SEO, só que sem clique, sem página, sem controle editorial da marca sobre o que é dito.
Tessa Lyons, VP de Produto do Instagram, esteve no palco da Rotonde com o artista Daniel Arsham, que cria esculturas e instalações surrealistas que transformam objetos modernos do nosso quotidiano como carros, consoles de videogames e personagens da cultura pop em artefatos desgastados pelo tempo, utilizando materiais como cinza vulcânica, selenita, quartzo e cristal. O papo abordou como ferramentas de IA podem ampliar repertório e velocidade de produção, mas sem que isso substitua a intenção criativa humana por trás da ideia. O deslocamento que a sessão propôs foi menos “IA substituindo pessoas” e mais “como ferramentas escalam produção sem esvaziar critério”.
Oprah Winfrey, apresentadora, produtora, empresária e uma das maiores personalidades da mídia global, foi homenageada com o Cannes LionHeart 2026, uma das principais distinções do festival para lideranças que usam criatividade, influência e voz pública para gerar impacto positivo. Em conversa com Phil Thomas, chairman do Cannes Lions, no Lumière Theatre, ela levou a discussão para intenção, confiança e legado. A frase que resume o tom da participação foi “my heart is my brand”: a ideia de que marca forte não nasce apenas de alcance, consistência visual ou presença midiática, mas de uma verdade reconhecível por trás de tudo o que se comunica.
REC Maison by Hands
A nossa presença em Cannes foi além da agenda “oficial” do Festival e contou com um espaço especial na Riviera Francesa.
Em parceria com o Reclame e o Multishow marcamos presença com a REC Maison by Hands, uma casa aonde recebemos clientes, parceiros e profissionais do mercado para cafés, drinks e conversas ao longo da semana.
O grande momento da Maison foi o dia do jogo do Brasil vs Escócia, no qual recebemos mais de 300 pessoas para torcer juntas pelo Brasil em pleno território francês. E acho que deu sorte heim!

Confira mais sobre a Rec Masion by Hands aqui e aqui.
Cobertura Hands + Reclame / Multishow
Além dos encontros presenciais, a Hands também esteve conectada à cobertura do Reclame no Multishow, acompanhando bastidores, entrevistas e análises sobre os principais acontecimentos do Cannes Lions.

Cannes 2026 repetiu “IA” em todo palco relevante. Mas o padrão dos cases premiados foi outro: quando qualquer marca produz volume infinito com um prompt, volume vira o mínimo esperado, não vantagem. O Grand Prix de Creative Data não foi pra quem coletou mais dados, foi pra quem reconheceu o dado certo dentro de uma infraestrutura que ninguém tinha pensado em reaproveitar. É a mesma lógica que sustenta tudo o que a Hands faz: a vantagem não está em produzir mais, está em provar que o dado é comportamento real, não simulação.
Quatro pontos se destacaram: (1) a criatividade segue central, mas precisa estar cada vez mais conectada a contexto e aqui que os dados podem fazer a diferença; (2) o dado deixou de ser apenas ferramenta de segmentação e passou a ser infraestrutura para sustentar a tese dos projetos e cases; (3) comunidades estão ganhando mais peso do que recortes demográficos genéricos e (4) a inteligência artificial já começa a ocupar a operação de mídia, distribuição e otimização, mas ainda não substitui a criatividade, sendo na verdade uma ferramenta que precisa ser considerada para dar maior escala, customização e experiência para as idéias.
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